Autor: Prof. Tarcísio Cobucci
Em sistemas intensivos como soja → milho safrinha, a calagem em superfície (sem incorporação) é uma prática comum, principalmente pela logística e pelo sistema plantio direto. Porém, existe um ponto técnico que merece atenção: a reação do calcário e a liberação de Ca e Mg tendem a se concentrar, sobretudo nos primeiros anos, na camada mais superficial do solo (0–5 cm).
O que este trabalho estimou (camada 0–5 cm)
- A acidez produzida ao longo do ciclo por fertilizantes (MAP, ureia/sulfato), fixação biológica de N (FBN) e decomposição da palhada.
- A quantidade teórica de calcário (PRNT 90%) necessária para neutralizar essa acidez na camada superficial.
- O quanto de Ca e Mg seria disponibilizado pelo calcário nessa camada, comparando com extração e exportação pelas culturas.
Resultados estimados na camada superficial (0–5 cm)
| Item | 1º semestre – Soja | 2º semestre – Milho safrinha |
|---|---|---|
| Acidez por MAP (kg CaCO₃/ha) | 8,8 | 4,4 |
| Acidez por N/FBN (kg CaCO₃/ha) | 45,8 | 85,8 |
| Acidez por palhada (kg CaCO₃/ha) | 36,0 | 51,5 |
| Total de acidez 0–5 cm (kg CaCO₃/ha) | 91 | 142 |
| Calcário PRNT 90% (kg/ha) | 101 | 158 |
| CaO fornecido pelo calcário (kg/ha) | 30 | 47 |
| Ca disponível (kg/ha) (CaO × 0,714) | 21 | 33 |
| MgO fornecido pelo calcário (kg/ha) | 18 | 28 |
| Mg disponível (kg/ha) (MgO × 0,869) | 16 | 24 |
| Extração total de Ca (kg/ha) | 256 | 126 |
| Exportação de Ca (kg/ha) | ≈ 9,7 | ≈ 25 |
| Extração total de Mg (kg/ha) | 79,4 | 90 |
| Exportação de Mg (kg/ha) | ≈ 10,5 | ≈ 27 |
Leitura rápida: o calcário estimado para neutralizar a acidez na camada 0–5 cm é baixo (101–158 kg/ha), e o Ca/Mg disponibilizado nessa camada (21–33 kg Ca/ha; 16–24 kg Mg/ha) é pequeno quando comparado à extração total das culturas.
Por que isso importa na prática
- A calagem em superfície “trabalha primeiro” no topo. Nos primeiros meses/anos, o efeito tende a se concentrar em 0–5 cm, liberando bases principalmente nessa faixa.
- Extração não é igual a exportação. A maior parte do Ca e Mg que a planta “puxa” não sai do sistema: fica em palhada e resíduos e pode retornar ao solo com o tempo.
- O gargalo costuma ser o tempo de liberação, especialmente do Mg. Mesmo com dose “adequada” de calcário, o Mg pode não acompanhar o pico de demanda — e isso ajuda a explicar deficiência de Mg no campo em alguns sistemas.
Recomendações técnicas da Assistec
- Monitore Mg e saturação por bases por camada (ex.: 0–10 e 10–20 cm), principalmente em áreas de alta produtividade e milho safrinha exigente.
- Se o sistema “pede resposta rápida” em Mg, avalie com seu consultor a suplementação de Mg mais solúvel (ex.: fontes magnésicas) para cobrir janela de maior demanda.
- Considere estratégia de reatividade e parcelamento do corretivo quando a meta é ajustar química do topo sem depender de uma única aplicação grande.
- Alinhe a calagem ao manejo de palhada: reciclagem é real, mas não é instantânea. Palhada bem manejada melhora retorno gradual de nutrientes ao sistema.
Visão de médio prazo
Em sistemas soja → milho, a calagem superficial cumpre bem o papel de neutralizar acidez e fornecer Ca e Mg no curto prazo no topo. No entanto, em ambientes de alta produtividade, pode ser necessário combinar estratégias para que a disponibilidade de Mg acompanhe a demanda das culturas, principalmente no milho safrinha.
Conclusão
O ponto central é simples: calagem em superfície funciona, mas sua dinâmica é concentrada e gradual. A decisão técnica mais segura é ajustar o corretivo ao objetivo (neutralização + fornecimento) e, quando necessário, reforçar Mg para não deixar a nutrição virar limitante no momento crítico da lavoura.
Crédito de autoria: Prof. Tarcísio Cobucci.
Fonte: “Liberação de Mg e Ca nas aplicações de calcário em superfície em função da produção de acidez dos cultivos”, Prof. Tarcísio Cobucci (material técnico).